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Resposta ao Artigo “A Carne Ética” de Luiz Felipe Pondé


(Folha de São Paulo)
Por Alexandre Pimentel  - www.alexandrepimentel.com.br
O filósofo articulista Luiz Felipe Pondé ainda faz parte de um grupo humano alienado, cuja insensibilidade grudada na falta de informação, com palavras pautadas no micro, escreve sem a seriedade necessária à realidade do século XXI. Interessante um veículo consagrado como a Folha de São Paulo permitir opiniões de nível tão baixo e de veracidade tão duvidosa. Certas “filosofias baratas”, Folha, deveriam ser substituídas por conteúdos mais relevantes e atualizados!
                Como formador de opinião normalmente não invisto meu tempo nessas figuras bizarras que contaminam a sociedade com pior da cultura ocidental, mas por tratar-se de um “parceiro” da Folha de São Paulo, veículo respeitável, cuja luta contra a ortodoxia e o reacionarismo é histórica, senti-me na obrigação de tecer algumas palavras.
                A noção pueril de “natureza não dócil” do senhor Luiz, tenta justificar a continuidade de processos mórbidos de crueldade reconhecidos e denunciados não apenas por vegetarianos antiespecistas, ambientalistas,  filósofos e religiosos, mas por prefeituras de grandes cidades, governos, artistas, intelectuais e empresas de responsabilidade social.
Nesse sentido, em todo o mundo, o projeto “segunda sem carne” tem sido um sucesso!
                A genuína doçura da natureza começa onde atitudes palermas, para não dizer cruéis, como do senhor Pondé terminam. Ele é cúmplice de uma estrutura social mecanicista onde o “humano” foi relegado à condição de coadjuvante e os princípios éticos foram subjugados pelos interesses transitórios dos detentores do poder econômico. Mas o que esperar dos materialistas de plantão?
É no ser realmente humano, integrado com a lei natural e aberto aos novos tempos que essa “doçura da vida” tem chance de criar um mundo melhor. Nesse sentido gostaria de citar Albert Einstein, pai da teoria da relatividade, também vegetariano, que em suas profundas reflexões afirmava:
A vida é como jogar uma bola na parede : Se for jogada uma bola azul, ela voltará azul; se for jogada uma bola verde, ela voltará verde; se a bola for jogada fraca, ela voltará fraca; se a bola for jogada com força, ela voltará com força. Por isso, nunca "jogue uma bola na vida" de forma que você não esteja pronto a recebê-la. “A vida não dá nem empresta; não se comove nem se apieda. Tudo quanto ela faz é retribuir e transferir aquilo que nós lhe oferecemos”... (Einstein, Albert - Como Vejo o Mundo, Editora Nova Fronteira, p. 114, 4ª edição)
Por estar na época da abordagem de Peter Singer, Luiz Pondé ainda vê a comunidade vegetariana, numerosíssima no mundo inteiro, como pessoas que apenas comem folhas de alface e rúcula enquanto nosso cardápio é muito mias rico, mais variado, mais colorido  e mais saudável do que as rações padronizadas como a dele.
É incorreto utilizar para o ser humano a expressão “carnívoro” já que esta refere-se a um grupo de animais dedicados exclusivamente ao consumo de carnes. Somos onívoros biologicamente mas podemos ser vegetarianos no campo da consciência e da ética. Nossa origem humana até pode ter passado pela caça, pelo esquartejamento da presa, pelo derramamento de sangue, mas a humanidade, mesmo vampirizada pelas pragas do neoliberalismo e do neomarxismo, felizmente avança de forma lenta e é necessário virar a página do pragmatismo nazista de consumo.
  Certamente, se entrasse no túnel do tempo e retornasse ao Brasil colônia o senhor Pondé escreveria nos jornais da época dizendo que os abolicionistas seriam radicais e que negros, ao não terem almas e não serem humanos, não seria dignos de qualquer compaixão. Se levasse seus possíveis filhos, provavelmente brancos, nessa viagem pelo tempo, ele diria que, apesar de amar sua prole, não conseguiria sentir o mesmo pelos negrinhos explorados e torturados por seus senhores. Aliás, o senso comum que confunde radicalismo com extremismo faz parte do repertório do nobre filósofo im-pondé-rado.
Bom lembrar que hoje é impossível pensar as prerrogativas do movimento vegetariano mundial de forma distinta ao desenvolvimento sustentável, que, novamente lembrando, é aquela forma de desenvolvimento capaz de suprir as necessidades da geração atual sem comprometer a capacidade de atender as futuras gerações. É o desenvolvimento que não esgota os recursos para o futuro como fazem, entre outras, a indústria da morte de animais, uma das maiores fontes de poluição ambiental da atualidade. O movimento vegetariano é a interface prática e educativa do movimento ambientalista.    
Se minhas expressões, graças a Deus, ecovegetarianas e nada dóceis foram mal entendidas por meus nobres leitores, para que tudo fique mais claro, segue abaixo a verborréia da oposição nas palavras de um filósofo carnívoro:
Esses caras são uns bobos (referindo-se ao movimento vegetariano) que nunca viraram gente grande, por isso eles gritam por aí "rats have rights" (salvem os ratos). Gente grande sabe que a felicidade não faz parte dos planos da natureza. O que escolher? A carne ética ou a rúcula santa? Um dia vão sair correndo dando pauladas em quem não se converter à "Santa Alimentação". (Luiz Felipe Pondé em artigo para a Folha de São Paulo  em 12 de outubro de 2009).
            Respondendo a este paradigma tortuoso eu particularmente faria uma nova frase referindo-me ao grupo de “carnívoros” militantes do filósofo Pondê:
       Esses caras são uns burros (referindo-me aos sacripantas da dor institucionalizada) que, ao imaginarem ser gente grande, sentem-se no direito de matar, por isso, eles gritam por aí "we want blood!"(nós queremos sangue!) justificando necessidades infundadas de proteínas e desejos mórbidos por energia animal .O que escolher? O regime jurássico canibal ou a dieta ética baseada em abundantes vegetais nutritivos? (Alexandre Pimentel em resposta ao artigo de Luiz Felipe Pondé, publicado na Folha de São Paulo  em 12 de outubro de 2009).
Há uma tendência em nossa sociedade de criminalizar em termos éticos ou políticos, os grupos que se organizam em defesas de certos interesses. É preciso considerar, porém, que movimentos sociais da magnitude do movimento vegetariano, não atuam no campo da agressão individual a pessoas ou grupos, mas procuram interferir na elaboração das políticas públicas, econômicas e sociais que ainda atuam de forma insustentável, desumana e cruel. Respeitamos todos os demais movimentos que lutam por dias melhores, somos conscientes de suas legitimidades, atuamos em conjunto com vários deles, mas nosso foco é na libertação dos animais não humanos que, ao sentirem a dor e o sofrimento da tortura, exatamente como os animais humanos, não têm direito à voz, vez, opinião ou advogado.  
Alexandre Pimentel  - naturopata , palestrante e consultor  
Celular para contatos pessoais: 61 9228.9449
www.alexandrepimentel.com.br

 

São Paulo, segunda-feira, 12 de outubro de 2009

LUIZ FELIPE PONDÉ (articulista da FOLHA de SÃO PAULO)

*A carne ética*

Me espanta a cegueira para o fato de que a natureza não seja um mar dócil,
mas sim um espaço de violência.
HÁ ALGUM tempo, uma charge nesta Folha desenhava o horror de uma pessoa que,
coberta de sangue, comia um pedaço de carne num restaurante. O garçom,
coitado, envergonhado, dizia ao consumidor da carne algo como: "Aqui não é
permitido comer carne". Os vizinhos de mesa, todos com suas alfaces no
prato, olhavam estarrecidos para o prato e a mesa do sanguinário homem.
A cor vermelha de sangue, no guardanapo amarrado no pescoço da figura
animalesca do carnívoro, traía sua insensibilidade para com o sofrimento da
picanha em meio à batata frita. Algum tempo depois, por conta do debate
acerca da forma fascista que assumiu, entre nós, a lei contra o tabaco em
locais públicos, eu dizia nesta coluna que em breve essas pessoas
"conscientes" (tenho desenvolvido um horror todo peculiar por pessoas
"conscientes") iriam perseguir os carnívoros.
Muitos leitores, revoltados com minha retórica abusiva, me acusaram de
exagerar e contaminar um problema de saúde pública, cientificamente
comprovado, com absurdos do tipo "fechamento compulsório de churrascarias".
E quando provarem que "carnívoro" é problema de saúde pública? Já vem por ai
a "segunda-feira contra os carnívoros".
"Waaal", diria o sábio Paulo Francis. O mundo sempre se torna óbvio quando
você aposta na imbecilidade disfarçada de bem comum. Pense o pior e torne-se
profeta. Agora, chegamos na hora de debater os direitos dos frangos, porcos
e bois. Chegaremos aos piolhos? O debate se dá em duas vertentes, como bem
dizia esta Folha alguns dias atrás, por conta da visitação da "Santa
Alimentação" aos frigoríficos brasileiros.
Os europeus, esses cidadãos tão evoluídos e preocupados com um mundo melhor,
exigem de nós frigoríficos "humanistas".
Mas quais são as duas vertentes do debate acerca do humanismo animal? De um
lado do ringue os moderados, ONGs a favor do abate sem sofrimento, com
formas confortáveis de transporte e abate (resumido na máxima "Por uma carne
ética!"), e do outro lado, os seguidores radicais do filósofo Peter Singer,
um utilitarista radical. Como todo utilitarista, ele identifica o "bem" com
a minimização do sofrimento.
"Uma ética de merceeiro inglês", dizia Marx. Esses "radicais", parceiros de
Singer, se autodenominam "abolicionistas" contra o "especismo". O que é
"especismo"? É uma forma de racismo contra os animais. Especista é quem acha
que os seres humanos têm mais direitos do que, digamos, camundongos, porcos
e baratas. E os piolhos?
Vamos concordar que torturar animais é feio, apesar de que grande parte da
vida esteja sustentada na necessidade da tortura de alguns seres para que
outros continuem a respirar. Também vejo nos olhos dos meus cachorros a
docilidade de quem veio a mundo para sofrer, aliás como todos nós, vítimas
do nascimento. Mas ainda aprecio suculentas picanhas. O que fazer, eu sou
incoerente mesmo, amo meus cachorros, mas sou indiferente aos pobres bezerrinhos.
Imagino que essas pessoas "conscientes" em breve proporão tratamentos de
choque para pessoas degeneradas como eu. Tombarei gritando pelo direito às
churrascarias. Por que essas pessoas "conscientes" não falam dos direitos
das rúculas em continuarem, de forma singela, a fazer fotossíntese? Onde
está a consciência deles quando torturam seres inocentes como as berinjelas,
trituradas entre nossos dentes horrorosos?
Não há dúvida de que há algo de monstruoso na humanidade, mas o que me
espanta nesses "conscientes" é a cegueira para o fato de que a natureza não seja um mar dócil, mas sim um espaço de violência. A humanidade tem algo de
monstruoso porque ela é parte da natureza. Se dependêssemos desses
"conscientes", não teríamos sobrevivido à seleção natural. Teríamos caído
paralisados diante da necessidade de matar para sobreviver, por um lado, e
pelo outro lado, da dor de consciência por aniquilar a esperança de pequenos
antílopes que corriam livres e saltitantes pela savana africana. Até hoje,
quando penso neles, choro à noite: ohh, como nós somos cruéis!
Esses caras são uns bobos que nunca viraram gente grande, por isso eles
gritam por aí "rats have rights". Gente grande sabe que a felicidade não faz
parte dos planos da natureza. O que escolher? A carne ética ou a rúcula
santa? Um dia vão sair correndo dando pauladas em quem não se converter à
"Santa Alimentação".
ponde.folha@uol.com.br


*"Se os matadouros tivessem paredes de vidro todos seriam vegetarianos." ** (Paul e Linda Mc Cartney)
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