Nutrição Paleolítica (pré-histórica):
Seu futuro está na dieta de seu passado
Dr. Humberto Cristiano F. Da Silva
Publicado em: 23/01/2009
Você é o que você come e, talvez, surpreendentemente, você também seja o que seus ancestrais comeram.
Assim como a genética e as experiências individuais influenciam a sua exigência nutricional, milhões de anos de evolução também moldaram sua necessidade de nutrientes específicos.
As implicações? Seus genes, os quais controlam cada função do seu corpo, são essenciais, assim como os genes dos seus primeiros antepassados. Faça sua parte alimentando bem esses genes e eles farão a deles – mantendo você saudável. Se der a esses genes nutrientes desconhecidos ou errados, eles lhe causarão mal – causando envelhecimento mais rápido, funcionando mal e levando a doenças.
De acordo com S. Boyd Eaton, M.D., uma das principais autoridades no ramo de dietas paleolíticas (pré-históricas), dietas modernas estão fora de sincronia com nossas exigências atuais. Ele conclui que quanto menos você comer como seus antepassados, mais suscetível você estará de contrair doenças coronárias do coração, câncer, diabetes e muitas outras “doenças da civilização.” 1 Para traçar o caminho certo em busca de melhorar sua atual e futura nutrição, você deve entender – e adotar – a dieta do passado.
A Origem da Vida e dos Nutrientes
Ajuda-nos a voltar ao início – bem ao início. Denham Harman, M.D., ph.D., que concebeu a teoria dos radicais livres do envelhecimento, também teorizou que os radicais livres são fatores importantes na origem e evolução da vida na Terra. De acordo com Harman, emérito professor da Universidade de Nebraska, Omaha, provavelmente os radicais livres desencadearam as reações químicas que levaram à primeira e mais simples origem da vida há aproximadamente 3,5 bilhões de anos. Porém, como os radicais livres de oxidação podem ser destrutíveis pelos antioxidantes defensivos – incluindo vitaminas –, estes provavelmente se desenvolveram pouco depois e garantiram a sobrevivência da vida. 2
De fato, os primeiros alicerces da vida podem ter sido criados quando a radiação solar oxidou os compostos dos oceanos e praias primordiais e levaram à produção de pantetina, uma forma de vitamina B ácido pantotênico, de acordo com o químico Stanley L. Miller, ph.D., da Universidade da Califórnia, São Diego. 3
Pantetina é a base da coenzima A, uma molécula que ajuda os aminoácidos a se juntarem – e possibilita a criação do ácido desoxirribonucléico (DNA) e do ácido ribonucleico (RNA), os quais são blocos de construção de nossos genes.
Ao longo de bilhares de anos, muitas outras moléculas – aminoácidos, lipídios, vitaminas e minerais – ajudaram e formaram a construção de inúmeras formas de vida. Por sua vez, essas formas de vida se tornaram dependentes.
De acordo com Eaton, 99% do nosso patrimônio genético se formou antes dos nossos ancestrais biológicos, desenvolvidos para Homo sapiens há cerca de 40.000 anos, e 99,99% dos nossos genes se formaram devido ao desenvolvimento da agricultura, há aproximadamente 10.000 anos.
A Dieta de Hoje, o Gene de Ontem
O que somos – e o que fomos – pode ser deduzido através de dados paleontológicos (na maioria antigos ossos e coprólito), e da observação dos hábitos de tribos caçador-coletores que viveram durante o século 20, segundo Eaton, um radiologista e médico antropologista da Universidade Emory. Antes do advento da agricultura, há cerca de 10.000 anos, todas as pessoas eram caçador-coletores: eles coletavam várias frutas e vegetais para comer e caçavam animais para sua carne. Evidente que a proporção de carnes e vegetais variava de acordo com a localização geográfica, o clima, a estação, mas, ainda assim, as pessoas eram caçador-coletores. Antes de começarem a cultivar grãos e gado, eles nunca ou raramente bebiam leite ou comiam grãos durante a infância.
Com a expansão da agricultura, a população se deslocou de grupos nômades para sociedades maiores e relativamente estáveis, inclinando-se para o campo. Cultura e conhecimento floresceram. A população também começou a consumir quantidades maiores de grãos, leite e carne domesticada. E, além do mais, se tornaram mais sedentários.
Com a Revolução Industrial, a dieta mudou ainda mais dramaticamente. Em torno do início de 1900, os grãos passaram a ser rotineiramente refinados, removendo muitos de seus nutrientes, enquanto o açúcar refinado passou a ser comum. Refletindo nas mudanças, o nutricionista Jean Bogert notou que “A idade da máquina teve como efeito forçar a população da nação industrial (especialmente os Estados Unidos) ao mais gigante experimento de alimentação humana já existente.” 4
Bogert também estava preocupado com o crescimento no uso de cereais refinados e açúcar, bem como com as comidas processadas, que se tornaram mais populares que frutas frescas e vegetais. Durante os últimos 40 anos, com o aumento dos restaurantes fast-food, a qualidade da dieta mudou ainda mais dramaticamente que Bogert poderia imaginar. As pessoas passaram a confiar mais nos processados do que nas próprias comidas frescas.
De fato, a maioria das mudanças na alimentação, durante os últimos 10.000 anos, modificou nossas habilidades para se adaptar geneticamente a essas mudanças, de acordo com Eaton. Diz ele “que a grande maioria de nossos genes são de origem antiga, o que significa que aproximadamente toda nossa bioquímica e fisiologia mantêm seu foco nas condições de vida que existiam antes de 10.000 anos atrás.” 5
Por outro lado, 100.000 gerações de pessoas foram caçador-coletores; 500 gerações dependiam da agricultura; 10 gerações viveram desde o início da era industrial; e apenas 2 gerações cresceram com comidas altamente processadas (fast-food).
“O problema é que nossos genes não percebem isso,” esclarece Eaton. “Eles, na maioria das vezes, continuam nos programando da mesma forma que programavam os humanos há pelo menos 40.000 anos. Geneticamente, nosso corpo está agora, virtualmente, da mesma forma que era antigamente.” 6
A Dieta Paleolítica (pré-histórica)
Através de trabalhos com antropologistas, Eaton criou o que muitos especialistas consideram uma figura clara de nossa dieta pré-histórica e estilo de vida.
A dieta panóplia de hoje – que vai de hambúrgueres fast-food a vários conceitos de dietas balanceadas e grupos alimentares – contém pouca semelhança, superficialmente ou nos atuais constituintes nutricionais, com a dieta Homo sapiens e com a dieta que seus ancestrais consumiram por mais de milhões de anos. 7
Veja como os principais constituintes dietéticos se acumularam no passado e presente:
Carboidratos. Atualmente, cerca da metade das calorias obtidas pelos humanos é proveniente dos carboidratos. No entanto, esses carboidratos raramente são grãos. A maioria dos carboidratos vem dos vegetais e das frutas.
“Os atuais carboidratos normalmente tomam a forma de açúcares e edulcorantes... Produtos desse tipo, juntamente com itens fabricados de farinhas de grãos altamente refinados, constituem calorias vazias... desprovidos do acompanhamento de aminoácidos essenciais e ácidos gordos, vitaminas, minerais e, possivelmente, fitoquímicos,” diz Eaton. 8
Frutas, vegetais e fibras. Com o passar dos anos, caçador-coletores tipicamente consumiam mais de 100 espécies diferentes de frutas e vegetais. Esses alimentos forneciam mais de 100 gramas diárias de fibras, promovendo o funcionamento regular do intestino. Eaton assim afirma: “A fibra, em dietas pré-agriculturais, vem quase que exclusivamente de frutas, raízes, legumes, castanhas e outras plantas naturais (não-cereais), por isso, era menos associada com o ácido fítico que a fibra dos cereais em grãos.” [Ácidos fíticos interferem na absorção de minerais.]
Atualmente, menos de 9% dos americanos consomem as recomendadas 5 porções diárias de frutas e vegetais, de acordo com Gladys Block, ph.D., epidemiologista nutricional da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Mesmo aqueles que regularmente comem frutas e vegetais geralmente se limitam a um punhado de alimentos diferentes. 9
Proteína e gordura. Os humanos de atualmente consomem em média 30% de proteína, variando com a estação e localização geográfica. Muitas dessas proteínas advêm do que as pessoas chamam de “caça” – animais não domesticados, como veado e boi. 10
Baseado em estudos contemporâneos de sociedades caçador-coletores, os seres humanos consumiam porções relativamente grandes de colesterol (480 mg diárias), porém seus níveis de colesterol no sangue eram muito inferiores à média dos americanos (cerca de 125 mg por decilitro de sangue). Existem algumas explicações para isso.
Em primeiro lugar, a domesticação dos animais aumenta seus níveis de gordura saturada e altera a média dos ácidos gordos, de ômega-6 para ômega-3. A maioria dos americanos consome um montante de 11/1 ácidos gordos, de ômega-6 para ômega-3. No entanto, o montante ideal, baseado nos dados evolucionários e antropológicos, seria uma média de 1/1 a 4/1. Em outras palavras, nossos ancestrais consumiam uma porcentagem mais alta de ácido gordo ômega-3 e é provável que nós também deveríamos consumir o mesmo.
Em segundo lugar, a coleta e a caça requeriam considerável esforço físico, significando que os seres humanos se exercitavam bastante, queimando assim a gordura e diminuindo os níveis de colesterol. “O estilo de vida nômade (colher alimentos) exigia vigoroso esforço físico, e através dos restos dos esqueletos encontrados, podemos perceber que eles eram tipicamente mais musculosos do que somos hoje,” diz Eaton. “A vida durante o período da agricultura era também muito ativa, porém a industrialização reduziu progressivamente o esforço físico obrigatório.” 11
Vitaminas e minerais. As carnes e plantas selvagens provenientes da caça contêm porções maiores de vitaminas e minerais em relação à sua proteína e carboidratos. Observa Eaton: “As frutas, nozes, legumes, raízes e outros não-cereais, que totalizavam 65-70% da típica caça, eram normalmente consumidos poucas horas depois de colhidos, com pouco ou nenhum tratamento e, muitas vezes, não cozidos... parece incontornável que os seres humanos agrários, em geral, tinham uma maior ingestão de vitaminas e minerais, a qual ultrapassa a dieta atualmente recomendada.” 12
A diferença no consumo de sódio e potássio – minerais eletrólitos necessários para o normal funcionamento do coração – é especialmente dramática. De acordo com Eaton, o típico adulto americano consome cerca de 4.000 mg de sódio diariamente, porém, menos de 10% desse montante vem naturalmente do alimento. O restante é adicionado durante o tratamento, cozimento ou tempero na mesa. Já o consumo de potássio é mais baixo, totalizando cerca de 3.000 mg diários.
Em contrapartida, os seres humanos consumiam apenas um número estimado de 600 mg de sódio diariamente, embora de potássio o consumo fosse de 7.000 mg. As pessoas, conforme Eaton, são os “únicos mamíferos terrestres de vida livre cuja entrada de eletrolíticos exibe esta relação.” 13 Esta relação contrária pode ser uma das razões para o fato das pessoas serem tão propensas a hipertensão e outras doenças cardíacas.
A Vitamina C e a Evolução Humana
Apesar de no passado as vitaminas dietéticas e os níveis de minerais terem sido 1,5 a 5 vezes maiores do que hoje, Eaton não é a favor de “superdoses” de vitaminas. Ainda assim, existem evidências revolucionárias demonstrando que doses maiores de vitamina C podem ser necessárias para uma saúde ideal.
A evolução muitas vezes prefere fazer ziguezagues em vez de seguir uma linha reta. Uma espécie pode acabar com a outra comendo-a. Mudanças climáticas e mudanças industriais também destroem espécies. De acordo com a teoria de “interromper o equilíbrio”, proposta por Niles Eldredge, ph.D., e Stephen Jay Gould, ph.D., da Universidade de Harvard, eventos catastróficos, como um asteroide atingir a Terra, podem dramaticamente alterar o curso da evolução. 14
De acordo com o bioquímico Irwin Stone, ph.D., durante um período entre 25 e 70 milhões de anos atrás, um evento catastrófico de uma natureza não conhecida afetou os ancestrais primatas dos humanos. Esse evento em particular conduziu a uma mutação que impedia todas as espécies, das quais somos descendentes, de fabricar sua própria vitamina C. Pelo menos algumas de nossas espécies sobreviveram e evoluíram a Homo sapiens, uma vez que viviam em uma exuberante região equatorial com alimentos ricos em vitamina C. No entanto, quase todas as outras espécies de animais, de insetos a mamíferos, continuaram a produzir sua própria vitamina C.
Essa teoria acerca de como nossos evolucionários ancestrais perderam sua capacidade de produzir vitamina C é a mais aceita pelos cientistas, enquanto a outra teoria de Stone é mais controvérsia. Ele acredita que a população nunca deixou de necessitar de grandes quantidades de vitamina C, mesmo tendo perdido a capacidade de produzi-la. Baseado em dados animais, ele estimou que as pessoas precisam de cerca de 1,8-13 gramas de vitamina C por dia. 15
Ironicamente, a perda da capacidade de produzir vitamina C pode ter realmente acelerado a evolução dos primatas aos modernos seres humanos, segundo a nova teoria. A vitamina C é um antioxidante importante, e a perda da capacidade de produzi-la pode ter permitido a formação de grandes números de radicais livres. Esses excessos de radicais livres teriam causado um grande número de mutações no DNA, contribuindo para o processo do envelhecimento e doenças. Algumas dessas mutações também podem ter sido herdadas pelos descendentes, criando muitas variações biológicas – um dos quais eventualmente se tornou H. sapiens. 16
A Dieta para o Futuro
Para a maior parte da história humana, a duração da vida não era particularmente longa. Há dois mil anos, a média da expectativa de vida eram meros 22 anos. As lesões traumáticas e as infecções eram as principais causas de morte. A melhora na higiene e saneamento são contribuintes significativos para o aumento na expectativa de vida durante o século 20.
Hoje, como as pessoas vivem mais tempo, estão cada vez mais suscetíveis aos danos causados pelos radicais livres e seus principais parâmetros, doenças cardiovasculares e câncer.
A questão é: para onde nós e nossas dietas iremos a partir daqui?
Nossa evolucionária dieta fornece importantes pistas para os níveis da “linha de base” e as proporções de nutrientes necessários para a saúde. A indicação sugere que deveríamos estar comendo muitos alimentos vegetais e uma modesta quantidade de carnes, mas sem grãos ou produtos lácteos. Com uma compreensão clara dessa dieta, temos a oportunidade de adotá-la para obter uma melhor e mais natural dieta. Podemos, ainda, aperfeiçoar o trabalho de personalização e otimização das nossas necessidades nutricionais.
Com base em nossa dieta paleolítica e evolutiva, restou claro que dietas modernas estão no caminho errado – e que nossa alimentação não satisfaz nossas necessidades genéticas. Em 1939, mesmo ano em que Bogert lamentou o aumento das comidas altamente processadas, o ganhador do prêmio Nobel Albert Szent-Gyorgvi, M.D., ph.D., explorou a importância de otimizar (e não apenas o mínimo) as necessidades das vitaminas. Anos depois, Roger William, ph.D., e Linus Pauling, ph.D., também fomentaram a concepção de nutrientes ideais, com base no fornecimento ideal de níveis de vitaminas e outros nutrientes em um nível molecular.
Pauling, expressivamente e por muitas vezes, observou que a saúde depende da presença de moléculas nutricionais. Para definir uma dieta que sirva para o futuro, temos de reconhecer que determinadas moléculas moldam nossas vidas por milhões de anos. Dietas paleolíticas proporcionam aos profissionais estas pistas – e nos dão uma base sólida para se firmar, talvez para proteger e prover nossos genes ainda mais.
Uma nota aos meus amigos que não acreditam em evolução: a evolução descreve o mecanismo de como a vida evolui, mas nada diz sobre a existência de um ser superior guiando o processo. Independentemente, a alimentação de hoje é muito diferente, e nem sempre tão boa quanto a alimentação do passado.
Nota:
1 Eaton SB, Eaton SB III, Konner MJ, et al., "An evolutionary perspective enhances understanding of human nutritional requirements," Journal of Nutrition, June 1996;126:1732-40.
2 Harman D, Aging: Prospects for further increases in the functional life span. Age 1994;17:119-46.
3 Keefe AD, Newton GL, and Miller SL, "A possible prebiotic synthesis of pantetheine, a precursor to coenzyme A," Nature, Feb. 23, 1995;373:683-5.
4 Bogert LJ, Nutrition and Physical Fitness, Philadelphia: Saunders, 1939:437.
5 Eaton SB, Shostak M, and Konner M, The Paleolithic Prescription: A program of diet & exercise and a design for living, New York: Harper & Row, 1988:39.
6 Eaton, et al., op cit, 1988:41.
7 Eaton, et al., op cit, 1996.
8 Eaton, et al., op cit, 1996.
9 Patterson BH, Block G, Rosenberger WF, et al., "Fruit and vegetables in the American diet: data from the NHANES II survey," American Journal of Public Health, December 1990, 80:1443-1449.
10 Eaton SB and Konner M, "Paleolithic Nutrition: A consideration of its nature and current implications," New England Journal of Medicine, Jan 31, 1983;312:283-9.
11 Eaton, et al., op cit, 1996.
12 Eaton, et al., op cit, 1996.
13 Eaton, et al., op cit, 1996.
14 Eldredge N, and Gould SJ, "Punctuated equilibria: an alternative to phyletic gradualism," in Models in paleobiology, Schopf TJM, editor, San Francisco: Freeman Cooper, 1972.
15 Stone I, "Hypoascorbemia, the genetic disease causing the human requirement for exogenous ascorbic acid." Perspect Biol Med 1966;10:133-4.
16 Challem JJ, "Did the Loss of Endogenous Ascorbate Propel the Evolution of Anthropoidea and Homo sapiens?" Medical Hypotheses, in press. |