Ervas daninhas desmistificam "vantagens" da soja transgênica*
Fonte: Informe Sergipe - 17/07/2009 - 06h07
Ervas daninhas resistentes ao glifosato ameaçam jogar por terra aquelas que
seriam as duas principais vantagens da soja transgênica: facilidade de
manejo e redução do uso de herbicidas. Nas lavouras de soja no Meio-Oeste
dos Estados Unidos, as maiores infestações são de amaranto e buva. No
Brasil, a buva é a principal ameaça. A planta resistente ao glifosato se
espalhou pelas lavouras do Norte do Rio Grande Sul e Oeste do Paraná e já
chegou aos campos de Maringá.
"O problema é sério", diz o pesquisador Dionísio Luiz Piza Gazziero, da
Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que retornou há 15
dias dos Estados Unidos, onde foi observar lavouras de soja infestadas por
buva e amaranto. "No Brasil, nas lavouras mais infestadas, a queda da
produtividade pode chegar a 40%, isto sem contar o aumento dos custos com
herbicidas e a perda da qualidade da soja, devido a maior umidade e impureza
dos grãos", acrescenta o pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa de Soja
da Embrapa, de Londrina (PR).
Segundo Gazziero, o uso continuado do mesmo herbicida, no caso o glifosato,
acabou selecionando plantas tolerantes e resistentes. Por enquanto, a maior
ameaça à soja é a buva, mas outras plantas daninhas começam a ganhar
expressão como o amargoso, no Paraná, e o azevém no Paraná e no Rio Grande
do Sul.
"É aquela história da seleção natural de Darwin: você tem 10 plantas, uma
delas resistente. Quando você aplica o herbicida, consegue matar nove, mas
fica uma. No ano seguinte, tem duas ou três que resistem, depois seis ou
sete, até que as ervas se espalham por toda a lavoura", diz Gazziero.
Entre as soluções para controlar a buva, Gazziero cita a sucessão da soja
com trigo ou aveia, em vez de milho safrinha, e o uso de outros herbicidas,
com mecanismo diferente ao do glifosato. Estas práticas acabam anulando as
vantagens da soja transgênica, a facilidade de manejo e o menor uso de
herbicidas, o que traz também menor impacto ambiental.
"O produtor tem que administrar muito bem o controle das ervas daninhas para
evitar prejuízos", diz Gazziero. A tendência, segundo ele, é deste problema
aumentar, caso medidas de manejo não sejam adotadas. Além da troca de
herbicidas, o pesquisador recomenda a rotação de culturas, inclusive entre a
soja transgênica e a convencional.
"Esta aliás é a grande vantagem do Brasil, que ao contrário dos EUA, não
abandonou o cultivo da soja convencional e manteve seu programa de
melhoramento genético. Na soja convencional, o produtor pode voltar utilizar
herbicidas mais antigos para controlar plantas resistentes", diz Gazziero.
INFESTAÇÃO - É justamente agora, durante o inverno, que a buva começa a
germinar nos campos. Como se trata de uma semente leve, ela acaba se
espalhando facilmente pelo vento. "É uma erva de difícil controle, e o ideal
é não deixá-la crescer além de 10 centimetros. Para o caso de buva
resistente, é necessário utilizar outro produto além do glifosato."
Nos EUA, segundo o pesquisador, os agricultores voltaram a utilizar
herbicidas antigos para controlar as plantas daninhas na soja.
"Embora o problema seja preocupante, há solução, desde que se faça o manejo
adequado. Muitos agricultores já conseguiram controlar a buva com a adoção
das técnicas indicadas. O problema é de todos nós: do governo, da indústria,
dos agrônomos, dos pesquisadores e dos agricultores", diz o pesquisador.
Ele lembra que doenças como a ferrugem da soja costumam apavorar mais os
agricultores do que ervas daninhas. "Mas elas são uma espécie de come quieto
da agricultura. Silenciosamente, elas infestam os campos e reduzem o
rendimento das lavouras", alerta Gazziero.
Na safra 2009/2010, a expectativa é as sementes transgênicas ocupem 55% da
área plantada com soja no Brasil. Em Estados como o Rio Grande do Sul, a
soja transgênica já representa 80% da produção, mas em algumas áreas do
Centro-Oeste, como Campos Novos de Parecis, Primavera do Leste e Sorrizo, a
soja convencional ainda ocupa 80% da área destinada à cultura.
Um dos motivos da resistência dos produtores do Centro-Oeste à tecnologia
dos transgênicos é o custo. Dados do Instituto Matogrossense de Economia
Agrícola (Imea), relativos a abril de 2009, mostram que em Mato Grosso o
custo da produção da soja transgênica (R$ 1.973/ha) é cerca de R$ 96
superior o da convencional (R$ 1.877/ha). (AEN/PR)
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