25 / 01 / 2010
Localizada a 2.300 metros de altitude, Sanaa, que tem dois milhões de
habitantes, tem uma rede de abastecimento de água insuficiente, com bairros
totalmente ignorados e outros onde o líquido sai das torneiras uma vez a
cada 20 dias.O resultado é que centenas de empresas privadas que se dedicam
à exploração intensiva dos praticamente esgotados lençóis freáticos vendem a
água em caminhões-tanques e recipientes de todos os tipos.Mohammad Maayad,
27 anos, é o dono de uma destas empresas. "Tiro água a 480 metros de
profundidade. Quando comecei, tirava a 400 metros. O nível cai mais ou menos
três metros a cada ano", afirmou. "Sanaa pode se tornar a primeira capital do
mundo sem água", escreveu o centro de reflexão Carnegie Endowment for
International Peace, em relatório publicado no ano passado.
De acordo com um especialista europeu, que não quis ser identificado, os
lençóis freáticos de Sanaa estavam a apenas 20 metros de profundidade nos
anos 60."O problema é o qat", sentenciou. Esta planta com propriedades
euforizantes mastigada pela grande maioria dos homens no Iêmen "monopoliza
entre 40% e 50% da água destinada à agricultura, que por sua vez representa
90% do consumo total do país". "O qat rende até quatro vezes mais que o
café, e a maioria das grandes plantações pertence aos chefes de tribos,
poderosos demais para o governo", explicou.
O preço do óleo diesel que alimenta as bombas é altamente subsidiado:
vendido a 17 centavos de dólar o litro, ele torna o bombeamento de água
praticamente gratuito. Alertadas há anos por especialistas internacionais,
as autoridades aprovaram em 2002 uma lei proibindo o bombeamento por
empresas privadas. "É uma boa lei. Normalmente, é necessária uma autorização
para cavar um poço", disse à AFP o especialista alemão Dierk Schlütter. "No
entanto, esta lei não é aplicada. O poder não está nas mãos do Estado, e sim
dos chefes tribais. Se o chefe autorizar, e ainda tiver plantações de qat, o
poço será cavado de qualquer jeito", lamentou.
"A única solução seria proibir o qat, mas a planta é tão integrada à
sociedade que é impossível fazer isso. Seria a mesma coisa que proibir a
cerveja na Alemanha ou o vinho na França. Por outro lado, os iemenitas vão
chegar muito em breve a um ponto em que terão de escolher entre mastigar qat
ou dar água para seus filhos", prosseguiu Schlütter. Os lençóis freáticos
que alimentam Sanaa estarão totalmente secos "em 2015 ou 2017, não se sabe
ao certo, alertou. "Sempre se escutam rumores sobre um deslocamento da
capital para o litoral, mas nada é feito".
O esgotamento dos lençóis freáticos pode ser adiado encaminhando, como já
vem sendo feito para algumas cidades, a água em caminhões-tanques. Porém, a
medida elevaria ainda mais o preço da água, que já custa muito caro em
alguns bairros, o que pode desencadear tumultos. Conflitos por água já foram
registrados no país nos últimos anos, principalmente no sul."O governo está
entre a cruz e a espada. Se tentar cortar a produção de qat, haverá reações
violentas dos produtores, mas se não o fizer, terá de lidar em breve com
tumultos provocados pela escassez de água", resumiu Schlütter.
* (Fonte: Yaho